Texto produzido pelo Dr. Fernando Gomes Pinto, neurocirurgião e neurocientista para o 'Comitê Saúde em Pauta' - grupo formado por importantes especialistas para debater as principais inovações na área da saúde.
Comitê Saúde em Pauta - Dois tesouros que a Inteligência Artificial traz para a medicina: tempo e precisão

A relação médico-paciente é a base do tratamento bem-sucedido. Durante a anamnese, o exame físico, a formulação de hipóteses diagnósticas, a solicitação e análise de exames complementares, o estabelecimento do diagnóstico, a estruturação e aplicação do tratamento clínico ou cirúrgico,' as duas partes, o paciente e o médico, têm momentos únicos de íntimo conhecimento e reconhecimento que criam os laços de confiança.

 

Pode parecer romântica esta descrição sequencial do passo a passo clínico, mas desde a época de Hipócrates, já se entende que algo mágico, fundamental para o processo de cura, depende da boa relação entre o doente e o terapeuta.

 

Slow Medicine

Há mais de 15 anos, o médico italiano, Dr. Alberto Dolara escreveu um artigo intitulado Invito ad una ‘slow medicine’ (em português: Convite a uma ‘Slow Medicine’) que foi publicado no Jornal da Federação Italiana de Cardiologia.* No texto, o autor alerta que a utilização de exames complementares é muitas vezes dispensável.  Além de consumir o tempo e a atenção que antes eram destinadas à interação direta, tal prática pode ressaltar sinais de alarme sem real embasamento científico, estimulando a ansiedade do paciente desnecessariamente.

 

Dentro desta realidade, entende-se que o quesito tempo é crucial para a formação do vínculo e até mesmo para a significação dos estados de doença e saúde num contexto mais amplo na vida das pessoas. Atualmente, há evidências que cerca de 40% do tempo em uma consulta médica, o profissional não está envolvido diretamente com o paciente, mas sim com o preenchimento de formulários, registro das observações clínicas e fichas burocráticas. É óbvia a importância da documentação para a criação de um banco de dados, bem como para a transparência no relacionamento médico-hospitalar e com as operadoras de saúde. Mas a boa nova é que a inteligência artificial aplicada à saúde vem justamente como resultado do trabalho conjunto dos registros de dados com o avanço da tecnologia.

 

O auxilio diagnóstico e inclusive a orientação terapêutica mais apropriada para um paciente específico, torna-se possível com algoritmos. Partindo do conceito que inteligência artificial é a capacidade de máquinas tomarem decisões, é por meio da informação proveniente da análise de múltiplas informações coletadas de muitos pacientes num banco de dados, que um computador pode analisar exames realizados por uma pessoa em conjunto com seus dados individuais como o perfil genético, por exemplo, e oferecer ao médico e ao paciente dois tesouros inestimáveis para a excelência no tratamento: tempo e precisão.

 

Ao reconhecer padrões de doenças, os sistemas computacionais oferecem dados aos pacientes e aos médicos que ajudam na prevenção e no tratamento mais adequado. Um paciente com câncer, por exemplo, pode ter seu histórico médico e dados genéticos usados para definir a combinação mais apropriada de terapias, baseado na análise do tumor e na eficácia de tratamentos empregados anteriormente em doentes com padrões semelhantes. Outro paciente, com queixas de perda de memória e desorientação, por exemplo, pode ter a análise dos exames de neuroimagem, da avaliação clínica e neuropsicológica, de forma que ao se comparar com um banco de dados, os diagnósticos de Alzheimer, Hidrocefalia de Pressão Normal e/ou Demência Cerebrovascular podem ou não serem confirmados precocemente. Muito além disso, pacientes podem ser monitorados, durante internação hospitalar, ambulatorialmente ou até mesmo durante check ups rotineiros, facilitando a detecção precoce de problemas de saúde.

 

A inteligência artificial aplicada é uma realidade que amplia a qualidade do contato entre o médico e o paciente. É uma ferramenta necessária para o futuro da saúde, porque todo o conhecimento produzido, documentado, publicado ou não, é incorporado e incrementa sobremaneira o método clínico em todos os aspectos, mas principalmente na humanização do tempo dispendido. A medicina exercida será não mais apenas a consultoria sobre doenças, mas a partir de agora, consultoria sobre saúde.

 

Bons ventos!

 

*REFERÊNCIA CITADA

[Invitation to "slow medicine"]. Dolara A. Ital Heart J Suppl. 2002 Jan;3(1):100-1.

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